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JACURUTU




01° de julho


Finalmente minha vida começou a se organizar. O caminhão com minhas coisas chegou pela manhã, bem cedo, duas horas antes de mim. Desempacotei apenas o essencial e fui dar uma volta na agradável cidadezinha, meu novo lar. Valeu a pena disputar tanto essa vaga na nova filial da empresa. Viver em um lugar com duzentos moradores e na beira da mata, com muita natureza: Meu sonho de consumo! Em 1 hora de caminhada já não havia mais nada pra conhecer. Voltei para casa com uma quentinha que comprei pelo caminho. Comi sozinho. Paz e silêncio. De noite, acordei com o barulho de uma coruja em uma árvore no quintal de casa. Ri do meu próprio susto e voltei a dormir.


05 de julho


O ritmo de trabalho é tranquilo, quase entediante, o que tem sido bom. Afinal, desde que cheguei, não tenho dormido direito. Toda noite uma maldita coruja me acorda com seus pios agourentos. Perguntei aos meus colegas se há muitas corujas nessa região. Eles me disseram que aqui é lar do Jacurutu, corujão-orelhudo. A cidade toda já está acostumada. Eu vou ter que me acostumar também, pelo visto.


08 de julho

Nessa madrugada tomei um susto terrível! Acordei com uma maldita coruja empoleirada na guarda da minha cama. Seu chirriar agourento me despertou e vi seus olhos alaranjados de predador, encarando os meus. Espantei-a com os braços e ela voou por uma abertura no teto, que dá para o sótão.

Imediatamente recolhi a escada móvel e fechei o alçapão no trinco. Sempre achei inconveniente ter um sótão, mas o resto da casa era tão bom que acabei escolhendo a casa mesmo assim. Acho que vou deixar a coruja morrer de fome lá em cima como castigo por quase me atacar.


10 de julho

Os barulhos no sótão de madrugada são insuportáveis. A coruja tem caçado ratos lá em cima. Abri o alçapão e subi. Misteriosamente, não havia mais nada. A janela estava trancada com cadeado. Não encontrei frestas visíveis no telhado. Para aonde aquela ave agourenta pode ter ido?


14 de julho

Depois de algumas boas noites de sono silenciosas, hoje tomei mais um susto. Encontrei uma bolota de pelos e ossos, jogados no canto do quarto. Eram ossos de rato! Só podia ser coisa da coruja, que ainda estava escondida em algum lugar da casa. Juntei tudo aquilo com a pá e joguei no lixo, com raiva. Vou colocar iscas com veneno por todo o sótão e em locais estratégicos da casa.



18 de julho

Mesmo com as iscas envenenadas, a coruja não apareceu. Ainda assim, toda manhã tem deixado sua bolota de pelos e ossos, no mesmo canto do quarto. Estou odiando essa casa! Se pudesse eu me mudaria, mas a cidade é pequena, não há nenhuma casa disponível para aluguel.


25 de julho

Nessa madrugada acordei com uma dor insuportável. O dorso de minha mão direita estava rasgado e sangrando. O pio agourento da coruja ressoou. Ela estava no canto do quarto me encarando. Mas, não era uma coruja normal! Ela era do tamanho de um homem adulto! Meu corpo estremeceu de pavor. Gritei e desmaiei.

Acordei horas depois, no meio da manhã, e percebi que tudo tinha sido um pesadelo. No entanto, o corte na mão estava lá. Tinha sido relativamente profunda a ferida.

Em vez de ir ao trabalho fui à única clínica do local. Eles trataram meu ferimento, mas eu tive que ir até a cidade vizinha para tomar vacina e soro. Voltei exausto. Ao menos, recebi licença médica de cinco dias.


03 de agosto


Depois de várias noites lutando contra a febre e sem incidentes noturnos, minha vida começou a voltar ao normal. Saí com alguns colegas de trabalho e fomos a um bar. Voltei para casa tranquilo e adormeci profundamente. No meio da noite, ouvi ruídos de pancadas no sótão. Peguei uma vassoura e subi. A janela, que vivia trancada, dessa vez estava escancarada. Alguém tinha invadido a casa!

Chamei a polícia, que procurou por todo o canto e nos arredores, mas ninguém viu nada. Nem as câmeras das casas vizinhas registraram nada de anormal. Que inferno de lugar! Estou com vontade de desistir desse emprego e voltar para São Paulo.


05 de agosto

Hoje no trabalho senti uma coceira estranha no braço, no pescoço, nas costas. Fui ao banheiro e tirei a camisa diante do espelho. Havia pelos compridos e finos se espalhando por todo o lado. Aquilo tudo era muito estranho! Nunca havia sido alguém peludo e agora havia pelos por toda a parte. Além disso, aqueles pelos lembravam uma fina penugem. De ave. Lembrei da ferida causada pela coruja. Seriam sintomas de raiva ou algo pior? Tinha de ir ao médico.



06 de agosto


Os médicos disseram que devia ser algum distúrbio hormonal e passaram uma bateria de exames. Poderia estar relacionado com a ferida ou ter outra causa. Novamente fui à cidade vizinha. Horas para ir e voltar. Como tanta coisa pode dar errado por causa de uma coruja?


15 de agosto

Os exames não deram nada. Aparentemente, meu corpo nunca esteve tão saudável. O mesmo não posso dizer da minha mente. Tenho tido pensamentos estranhos, sombrios. Um apetite voraz por carne mal passada, que tem sido minha dieta habitual. Passei no mercado e enchi minha geladeira de carne. Tenho comido carne mal passada até no café da manhã. Adoro o gosto de sangue.


24 de agosto

Tenho vivido recluso. Não saio mais com os colegas de trabalho, nem nos finais de semana. Meus pelos aumentaram. Estou muito peludo e só saio com camisas de manga comprida e calças. A luz do dia incomoda minha vista e até no trabalho tenho usado óculos escuros. Desenvolvi um curioso gosto de subir em árvores. A árvore do quintal de casa é bem alta e da sua copa dá para ver até a casa dos vizinhos.


03 de setembro

Sinto calafrios e dores nas mãos, que estão cada vez mais rígidas. Minhas unhas estão crescendo em uma velocidade espantosa. Aparo em um dia e, no máximo, dois dias depois já estão enormes.


12 de setembro

Passei a dormir com a janela aberta, para que os jacurutus entrem. Acostumei com seus pios noturnos e nunca mais deixei meu sótão trancado. As bolas de pelos e ossos acumulam-se no meu quarto. O cheiro de sangue e carniça me atrai. Estou sempre com fome.


20 de setembro

Meus pelos cobriram a maior parte do meu corpo. Parei de ir ao trabalho, arranquei o telefone do gancho, destruí meu celular. Quero ficar sozinho. Um colega do trabalho apareceu outro dia e disse que eu fui demitido. Eu gritei com ele e quase o ataquei. Ele foi embora assustado. Quero só a companhia dos jacurutus. São animais incríveis!



30 de setembro

Toda noite subo nas árvores e observo a vizinhança. Ontem eu peguei um morcego com minhas próprias mãos. Ele tentou se debater, mas fui mais rápido. Quebrei seus ossos nos meus dentes, senti seu sangue enchendo minha boca como uma taça de vinho tinto. Que prazer é caçar!


05 de outubro

Não sinto mais vontade de escrever esse diário, minha mente já não se interessa mais pelas coisas mundanas. Aprecio apenas a noite, os jacurutus e caçar ratos, morcegos, pássaros. Minhas mãos doem quando escrevo, elas estão cada vez mais rígidas e fechadas, minhas unhas crescendo a cada dia.


13 de outubro

Hoje matei! Matei todos eles! Todos os jacurutus que entraram na casa! Eu sou o maior! As presas são minhas e não vou dividir!


22 de outubro

Minhas mãos não se abrem mais sem doer. A luz machuca meus olhos. Passo o dia inteiro vomitando. Estou morrendo, eu acho.


31 de outubro

Última vez. Chega. Vou me jogar.


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— Delegado, o que vamos fazer com todas as corujas e ratos mortos do sótão e do restante da casa? Tem uma que é quase do tamanho de um homem! — disse um policial jovem, dirigindo-se a um senhor de meia idade, grisalho.

O delegado, que havia acabado de ler aquelas anotações, por um momento ficou em silêncio, como se meditasse profundamente sobre um assunto muito complexo. Por fim, respondeu:

— Queime tudo, junto com esse caderno de anotações. Para todos os efeitos, o rapaz simplesmente enlouqueceu e se suicidou, atirando-se de cabeça da copa da árvore. Não quero que nada além chegue à imprensa. As pessoas precisam de paz para dormir.


Rodrigo Monsores.



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