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Verde Menina


Rosa Araujo


A menina era livre, uma força da natureza. O sol, as folhas, a água das cachoeiras, a terra que ela pisava ao caminhar, tudo fazia parte dela.

Corria livre, cabelo solto, olhos verdes como a mata da qual ela era filha. Muitos a consideravam uma encantada, nem parecia desse mundo.

Um dia, ela encontrou um pássaro ferido caido no chão da mata. Olhou e teve dó. Ele estava ensanguentado, faltavam-lhe penas nas asas e cor no bico. Resolveu levá-lo para casa e cuidá-lo.

Limpou-lhe as asas, tratou-lhe os ferimentos e alimentou-o. Cuidava dele todos os dias, com muito desvelo.

Deixava a ave em casa e ia para suas caminhadas na mata, pois, fazia dos seus passeios um ritual.

Quando estava mais forte, a ave começou a cantar e a bater as asinhas. A menina ficou feliz e pensou quem em pouco tempo poderia devolvê-lo à natureza.

Passaram -se mais uns dias e, ela percebeu que, quando fazia menção de sair, o pássaro ficava agitado, começava a cantar mais alto e dava uns voos rasantes em sua direção, como que querendo impedi-la de ir.

A menina obedeceu à vontade do pássaro e ficou em casa, pensando que algo poderia estar errado na mata e o bicho poderia estar tendo um mau presságio.

Nos dias seguintes, embora, sentisse vontade de voltar a sair, o pássaro, já curado, todas as vezes que se aproximava a hora em que ela costumava sair, ele ia para perto dela voava e cantava um canto triste, que acabava fazendo-a desistir de sair.

Aos poucos, a menina não saia mais. O pássaro havia dominado a vontade dela de tal forma, que a menina perdera sua luz, seu ímpeto de estar na mata. Seus olhos perderam o verde brilhante, os cabelos foram caindo e ressecando, o corpo definhando lentamente.

A mata sentiu sua falta. As árvores se agitavam ao vento, como se quisessem chamar a menina de volta, a cachoeira aumentou sua força, para ver se o barulho chamava a atenção dela e nada.

Um dia, apareceu na porta da casa da menina, um senhor alto, chapéu de palha na cabeça, uma capa vermelha-encardida nas costas e uma bengala de madeira, onde se apoiava pesadamente.

Ela olhou para ele e o abraçou, chorando muito. Ele pegou a menina no colo, cantou uma música suave para ela e acariciou seus cabelos.

O pássaro vendo aquilo, se lançou para cima do velho, bicando suas mãos com força, querendo machucá-lo. O senhor afastou-o com um tapa e continuou cantando para a menina, que estava adormecida em seus braços.

O pássaro, com raiva, se lançou em direção aos olhos do velho para furá-los. O velho desviou o rosto do ataque, olhou para o pássaro com firmeza, conjurou uma palavra que o afastasse definitivamente da casa, de perto da menina.

O bicho então, ao invés de sumir, cresceu diante dele, tomou a forma de um cachorro grande, feroz, que partiu para o ataque. O velho, pousou suavemente a menina adormecida no chão e se virou para o cachorro.

O velho e o cão se embolaram em uma luta violenta, até que o ancião agarrou o cão encantado pela cabeça, abriu sua boca, colocou a mão lá dentro e retirou o coração do bicho, esmagando-o com toda força.

O animal deu um grande berro, uma fumaça escura, na forma do pássaro de antes, saiu do corpo dele, sobrevoou a menina adormecida e saiu pela janela da casa.

O velho olhou a partida do espectro do pássaro/cão e acordou a menina. Ela olhou para ele sem entender, mas, sorriu. Ele pousou a mão no peito da menina, na altura do coração dela, soprou em seu nariz, tocou sua testa e saiu.

Ela olhou a volta procurando pelo pássaro, mas sabia que ele havia ido embora. Abriu a porta de sua casa e sentiu o abraço da mata.

Nunca mais foi vista por aquelas bandas. Em sua casa ficaram uma folha, verde como seus olhos, uma pena de pássaro, e uma surrada capa vermelha-encardida.




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