top of page

Uma homenagem aos quadrinhos.

No dia 30 de janeiro de 1869, Angelo Agostini fez a publicação da primeira história em quadrinhos do Brasil: “As Aventuras de Nhô-Quim ou Impressões de uma Viagem à Corte”. Como homenagem, ficou instituído que neste dia seria comemorado o Dia Nacional das Histórias em Quadrinhos, ou Dia do Quadrinho Nacional.



As Aventuras de Nhô Quim ou Impressões de Uma Viagem à Corte. Foto: Wikimedia Commons/Revista Galileu


Mas, o que são histórias em quadrinhos afinal? As HQs são uma forma de contar uma história através de imagens e textos. Utilizam portanto, linguagem verbal e não-verbal e essa é a principal diferença para um livro comum, por exemplo.


Os recursos gráficos trazem o leitor para uma imersão na história e a forma de contá-la é bem diferente, uma vez que o texto surge em balões ou quadros apenas quando necessário. No entanto, isso não quer dizer que a linguagem verbal seja empobrecida nos quadrinhos; neles estão presentes os principais elementos de uma narrativa: personagens, espaço, narrador, tempo e a ação, que se desenvolvem de uma forma fluida, mais leve e despojada.


Ainda falando de Brasil, gostaria de destacar as histórias da Turma da Mônica, que certamente fizeram parte da infância de muita gente. Criada pelo cartunista e empresário Mauricio de Sousa, foi originada em 1959 de tirinhas de jornal, na qual os personagens principais eram Bidu e Franjinha. A partir dos anos 1960, a série começou a ganhar a identidade atual com a criação de Mônica e Cebolinha, entre 1960 e 1963, que passaram a ser os protagonistas.



Diversos personagens da Turma.

(Cena de "Entrevista com a Mônica", Turma da Mônica 1ª Série Nº 28 (Editora Panini), abril/2009.)


Embora a maior parte das histórias girem em torno das aventuras de Mônica, Cebolinha e seus amigos do Bairro do Limoeiro, o termo do título se refere também às demais famílias de personagens criados por Mauricio de Sousa, derivadas de outras séries, como Turma do Chico Bento, Turma da Tina, Turma da Mata, Turma do Penadinho, entre outros. Desde 1970, na forma de revista em quadrinhos, os personagens já foram publicada por editoras como a Abril (1970-1986), a Globo (1987-2006) e Panini Comics (2007 até a atualidade), somando quase 2000 revistas já publicadas para cada personagem.


Os quadrinhos sempre estiveram em minha vida desde que fui alfabetizado. Lembro que demorei a aprender a ler, mas depois que consegui, sempre estava com um pequeno livro ou gibi nas mãos. E os quadrinhos, justamente por serem mais simples, ajudaram muito no meu desenvolvimento de vocabulário, ampliando meus conhecimentos do mundo. Lia todos os gibis que meu irmão mais velho comprava e trazia de São Paulo. Quando meus pais saíam, às vezes arriscava pedir que eles me trouxessem algum da banca de jornal. Mesmo nossa situação financeira sendo difícil, meus pais faziam o que podiam para me dar gibis, arrumar livros emprestados, pois sabiam o quanto eu gostava de ler.


A Turma da Mônica, os heróis da Marvel e da DC Comics povoavam meu imaginário e eu ficava nas minhas brincadeiras imaginando-me como aqueles heróis, derrotando vilões terríveis que ameaçavam a paz do mundo. O tempo passou, eu cresci e aos poucos fui largando os gibis para entrar nos livros mais "sérios" e profundos. Li vários clássicos, o gosto foi mudando e parecia que não voltaria mais a tocar em quadrinhos.


Até que, entre um clássico e outro, entrei em um sebo no meu bairro, sempre à cata de alguma pérola perdida nas estantes empoeiradas. E encontrei "A espada selvagem de Conan". Lembrei da minha infância em que ganhar um gibi do Conan era quase como um presente de natal adiantado. Levei-o para casa e devorei as páginas em pouco mais de uma hora. Redescobri o prazer de ler um quadrinho, que havia ficado perdido em alguma estante empoeirada dos meus sentimentos.


Desde então, passei a encaixar sempre que possível a leitura de um quadrinho entre um livro e outro. E cheguei a Watchmen, considerado por muitos como a maior obra-prima das HQs. Comprei a edição definitiva da Panini, e iniciei a leitura devagar, degustando as páginas. Levei um bom tempo para terminar, quase um mês, mas a cada vez que concluía um capítulo, ficava mais impressionado com a complexidade da trama, com a profundidade dos personagens e a riqueza da arte.




Divulgação/DC Comics


De cara deixo bem claro que Watchmen é uma história adulta, densa, violenta. Não é uma história para crianças. Nem para adultos que se comportam como crianças e desejam histórias já digeridas, prontas para serem engolidas. Com roteiro de Alan Moore e arte de Dave Gibbons, foi lançada originalmente em edições mensais, a partir de 1986.


A trama se desenrola nos EUA de 1985, mas em um mundo alternativo em que aventureiros fantasiados seriam realidade. A presença de vigilantes mascarados mudou tudo, trazendo impactos sociais que fizeram com que o governo proibisse sua atuação. A história inicia-se com um herói, supostamente insano, que age na clandestinidade. Ele passa a investigar o assassinato de um de seus antigos colegas de profissão. E essas investigações levarão ao desvelamento de uma trama sombria, que porá em risco toda a humanidade.


Os personagens são profundos e cativantes. O Coruja, Rorschach, Dr. Manhatan, o Comediante e tantos outros, são complexos e tão bem estruturados, que conhecemos seus dramas, suas convicções, suas visões de mundo, suas perversões, até o nível do psiquismo em alguns casos, do subconsciente. Nos identificamos com alguns, repudiamos outros, mas é impossível passar indiferente a eles.


A narrativa é sofisticada a ponto do roteirista colocar um personagem lendo uma história em quadrinho dentro dos quadrinhos. "Contos do cargueiro negro" é uma história de piratas, um dos poucos tipos que fazem sucesso no mundo de Watchmen, pois lá os heróis são realidade e os gibis com heróis não vendem. A história narrada no gibi dentro do gibi relaciona-se aos diálogos dos quadros que estão acontecendo no mundo fora da história, e o desenrolar dela é importante para entendermos a personalidade de um dos personagens principais da trama, o Ozymandias.


Temas como guerra, violência, abuso, problemas psiquiátricos, a complexidade do ser humano, o valor de uma vida humana, se há certo ou errado... Profundas reflexões filosóficas são tecidas nas páginas dessa brilhante história. A cada final de capítulo, o roteirista colocou uma citação relacionada intimamente ao desenrolar da história. Deixo aqui algumas:


"A liberação do poder do átomo mudou tudo exceto nosso modo de pensar... A solução para esse problema reside no coração da humanidade. Se eu tivesse ideia, teria me tornado um relojoeiro" - Albert Einsten.


"Não enfrentes monstros sob pena de te tornares um deles, e se contemplas o abismo, a ti o abismo também contempla". Friedrich Nietzsche.


"Ao que nos compete discernir, o único propósito da existência humana é lançar uma luz nas trevas do mero ser". C.G. Jung - Lembranças, Sonhos e Reflexões.


Watchmen revolucionou os quadrinhos com sua profundidade, colocando as histórias de heróis em outro patamar, provando que as HQs podem ter uma narrativa rica e fascinante. E você? Qual HQ vai ler no dia do quadrinho?


Rodrigo Monsores

Posts recentes

Ver tudo

Comments


Post: Blog2_Post
bottom of page