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Traição

Rosa Araujo





Clotilde amargava a dor da dúvida: seu marido tinha ou não uma amante? Já havia algum tempo que Mauro não comparecia com a esmola mensal para as despesas. Andava estranho, como se escondesse um segredo gravíssimo. Um ar de quem realmente fez algo que não podia, e, ao mesmo tempo, deixava transparecer uma alegria que ofendia a mulher.

Era, normalmente, o tipo do homem que tinha hábitos comuns. Chegava sempre cansado do trabalho e da viagem longa na condução, se estirava numa cadeira do lado de fora e esperava placidamente pelo seu jantar. Conversava com a mulher sobre a dificuldade da vida, via a televisão sem ver e depois se jogava na cama para acordar no dia seguinte, recomeçando a rotina. Mas, ultimamente, estava diferente. Mais animado, meio aéreo, e bastante arrumado para o gosto da mulher. Voltava cada vez mais tarde para casa e o coração de Clotilde se enchia de suspeitas. As vizinhas do conjunto onde moravam percebiam seu ar meio tristonho e perguntavam:

- O que é que você tem, mulher? Anda aí pelos cantos, com jeito de quem anda adivinhando desgraça...

- Nada não. O Mauro tá voltando cada vez mais tarde... sei não, coração de mulher não se engana...

E ia para o portão esperar o marido que não chegava. De repente, lá vinha ele, com a cara mais sonsa do mundo com as mais esfarrapadas das desculpas:

- Acidente mulher.., assalto..., ônibus quebrou... mas, cadê a janta?

E Clotilde arrumava o prato do marido, sem nada dizer. Ruminava os mais sombrios pensamentos a respeito dos atrasos cada vez maiores.

Eis que um dia, Mauro não veio dormir em casa. A esposa esperou, a janta esfriou e o marido, nem sinal. Clotilde não pregou o olho a noite toda, esperando o homem voltar para casa, mas, nada. Passou-se o dia todo naquele silêncio de espera e presságios. De noitinha, Mauro apontou na esquina e Clotilde, que cortava legumes foi ao seu encontro com a faca na mão exigindo satisfações ali mesmo.:

- Onde é que tu tava, homem? Te esperei a noite toda com o coração na mão e tu me aparece só hoje? Quero uma boa explicação para isso já! E tem que ser muito boa mesmo, se não quiser ficar sem o que tu mais preza!

Gritou ela olhando para baixo com a faca na mão.


A vizinhança saiu às portas para ver o escândalo e as mulheres do conjunto esperavam pela resposta do homem tecendo os piores comentários:

- Canalha, ordinário! Deve ter um rabo de saia por aí!

- Isso deve ser enrosco com mulher da vida, homem adora vulgaridade...


E Mauro, cada vez mais nervoso, repetia:

- Calma, mulher, vamos resolver isso em casa, sem escândalo!

Saiu arrastando a companheira pela rua. Chegando em casa, Mauro tentou se explicar:

- Aconteceu um acidente lá na obra, o Caetano caiu do andaime e desmaiou, foi uma loucura! Todo mundo correu pro hospital, e, como tu sabe, ele não tem família aqui, alguém tinha que se responsabilizar por ele, e eu fiz isso.

- Mas você?! Por quê?! Nem é tão amigo do Caetano assim...

- Tu sabe que ninguém quer assumir responsabilidades, né? Eu fiquei com pena do cara e fiz o que pude por ele. Como aqui não tem telefone, não deu pra avisar. Tô desculpado?

Clotilde olhou para o marido, deu-lhe um beijo e fingiu perdoar. Então, Mauro, foi tomar o banho antes do jantar. A mulher aproveitou para revirar os bolsos das calças do homem. Nada achou. Virou os bolsos da camisa e nada. Abriu a carteira, remexeu todos os papeizinhos possíveis, e, de repente, do meio das orações e das imagens de santos, saltou um papel cor-de-rosa, minúsculo. Nele, um número de telefone. Pressentiu traição. Antou, catou as coisas, botou de volta o papelzinho na carteira no exato momento em que Mauro saía do banheiro. O marido olhou em volta, meio desconfiado, mas, como estava mais era querendo que a mulher esquecesse o atraso, não falou nada e foi para a cozinha jantar. Clotilde então, falou:

- Vou dar uma chegada na casa da Taninha, pegar uma receita de bolo e já volto.

O marido concordou:

- Tá bom, mas, não demora.

Saiu. Foi ao bar da esquina da sua rua e pediu emprestado o telefone do seu Zé, dono do bar. O único que ainda tinha telefone fixo ainda naquelas bandas. No caminho, pensava:

- Se for mulher que atender, eu desligo.

Discou os números do papelzinho, meio trêmula. Esperou. Atenderam:

- Alô? Alô! Quem é que tá falando, hein?

Era mulher. Clotilde desligou, rápida.

Discou de novo:

- Alô? Olha aqui, se for trote eu vou logo dizer uma coisa, vai....

A mulher desligou depressa com medo do que vinha em seguida.

- Ah, ordinário! Então esse é o Caetano que caiu do andaime, né? Pois esse canalha do Mauro vai ver com quantos paus se constrói um andaime de verdade!

E foi para casa, arquitetando uma maneira de descobrir toda a traição do marido.

Chegando em casa, encontrou Mauro lavando o prato do jantar.

- E então, pegou a receita?

- Receita? Ah, peguei.

- Então, vamos para cama que já é tarde.

A mulher deitou na cama, mas, quem disse que conseguia dormir? O pensamento girava em torno da voz que ouvira no telefone. Pegou-se imaginando como seria essa mulher. Loura ou morena? Com certeza, mais jovem. Na verdade, Clotilde achava que qualquer uma, naquele momento, seria melhor do que ela.

Mauro não era um homem bonito. Tinha boa aparência, corpo bem definido, por conta do trabalho contínuo em obras, ainda era capaz de atrair as mulheres. E, por isso, Clotilde sofria e rolava na cama sem poder dormir.

Amanheceu e o marido se levantou para mais um dia de trabalho. A mulher fez o café e arrumou a marmita. Mauro beijou a mulher e saiu.

Assim que se pegou sozinha, bolou um plano para dar um fim àquela situação. Ia descobrir o que estava acontecendo ou não se chamava Clotilde da Silva!

Vestiu um vestido da falecida mãe, colocou uma peruca de carnaval que ainda guardava, passou uma maquiagem pesada no rosto, olhou-se no espelho. Estava irreconhecível. Só faltava o toque final, os óculos escuros. Pronto. Perfeito. Saiu em direção ao ponto de ônibus e esperou aquele que a levaria ao trabalho do marido. No coletivo, uma menina cedeu o lugar para ela sentar e ela pensou:

- Nossa, devo estar com cara de velha mesmo!

Demorou uma hora para chegar ao seu destino. Lá chegando, sentou-se atrás de uma árvore e esperou. Enquanto esperava, pensava nas coisas mais horríveis. Tinha certeza que na hora da saída, a mulher que falou ao telefone viria encontrar o seu marido e que eles sairiam juntos e iriam sei lá para onde consumar a traição que ela sentia acontecer todos os dias.

Finalmente, deu a hora do marido sair. Na porta da obra, parou uma jovem loura, impaciente, com ar de quem esperava alguém que já deveria ter saído.

- Deve ser ela a talzinha que está saindo com o Mauro.... ela é bem bonita mesmo. Não é à toa que ele anda tão estranho...

Subitamente, Mauro surge no portão, correndo. Pega a moça loura pelo braço e corre pela calçada. Clotilde não perde tempo e segue os dois pela calçada oposta. Mauro continua puxando a moça por muito tempo. Entram em outra rua, dobram a esquina, entram em mais outra rua, e, Clotilde, firme atrás, cada vez mais intrigada e irada:

- Meu Deus, será que esse safado tem outra família com ela?! Bem longe de casa para ficar encoberto! Meu Deus, é um golpe que não vou aguentar!

E continuou atrás do casal, até que eles entraram em uma casa. Na entrada, um letreiro em neon cor-de-rosa, igual o papelzinho que Clotilde achara no bolso do marido escrito: “Passion”. Ela, de intrigada, passou a espantada:

- Meu Deus se não é família, então será que Mauro arranjou uma prostituta como amante? Não é possível!

Esperou uma hora do lado de fora antes de entrar. Entrou. Tirou os óculos e percebeu que era uma boate. O ambiente era um tanto escuro e enfumaçado de tanta gente que fumava por ali. Espichou a cabeça e apertou os olhos para ver se conseguia achar o casal. Olhou todos os rostos, desde o barman até os garçons até as pessoas que conversavam nas mesas e nada. Até que, de repente viu a moça loira, sentada atrás do balcão que ficava mais reservado na sala escura. Ela falava ao telefone e Clotilde reconheceu a voz que havia ouvido ao telefone. Indignada, chegou até a mesa e perguntou aos berros:

- Onde é que tá o Mauro, hein? Onde ele se enfiou? Você é a biscate com quem ele anda se encontrando depois do trabalho, é?

A mulher respondeu:

- Eu não conheço Mauro nenhum! Tá maluca, minha senhora?! Olha é melhor a senhora se retirar, ou escolher um lugar para sentar, porque vai começar o show de Vanessa Vartan.

Clotilde quis argumentar, gritar com ela, mas não pode. Foi interrompida pelo barulho da música forte que saía das caixas de som do palco. Em cima dele, de costas, estava uma mulher, alta, vestida com um vestido de lantejoulas vermelho. Dublava uma música romântica, sempre de costas para a plateia, até que virou-se para a plateia num rodopio gracioso.

E qual não foi a surpresa de Clotilde, ao reconhecer, por baixo do vestido vermelho e da maquiagem, Mauro, o peão de obras, seu marido.


ROSA ARAUJO é uma apaixonada por literatura, astrologia, tarô, animais, língua francesa e gente. Estudou, graduou-se em letras e fez mestrado em literatura brasileira na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Trabalha no Poder Judiciário de Estado do Rio de Janeiro há 17 anos. Atualmente tem um blog de astrologia É casada, tem uma filha e mora em Seropédica. RJ.

Endereço do blog: www.ojuarairamesoterica.blogspot.com

Pagina no instagram: @esotericaluz2022

Facebook: Rosa Zanuzzo

Perfil Pessoa instagram: rosazanuzzo2022


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