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O Esotérico do Parque do Boi.


Rosa Araujo


“Um velho cruza a soleira

De botas longas, de barbas longas

De ouro o brilho do seu colar

Na laje fria onde coarava

Sua camisa e seu alforje

De caçador

O meu velho e invisível

Avôhai

O meu velho e indivisível

Avôhai”

Avôhai – Zé Ramalho


Meu avô Feliciano morava em uma cabana na entrada da floresta, na saída da cidade. Gostava de habitar o limiar entre as duas, porque era um homem de múltiplas habilidades, como vocês irão ver.

Era um curandeiro de mão cheia. Conhecia todas as ervas, suas propriedades e como utilizá-las para fazer chás, banhos e unguentos que curavam o corpo e a alma. Filho de um grande tuxaua, aprendeu com o pai tanto as artes da guerra como da cura. Em tempos de guerra, ainda menino, meu avô guerreou junto com o pai contra os brancos que acabaram por dominar sua aldeia. Em tempos de paz, aprendeu as artes curativas.

Seu pai ensinou ao jovem Feliciano como se guiar pelas estrelas ao sair pela floresta à noite. Mostrou em que fase da lua pode ser feito este chá ou aquele banho. Trouxe ao filho o entendimento do cheiro da chuva e o silêncio que precede a tempestade. Finalmente, fez o filho entender que todo o ser humano traz em si os quatro elementos da natureza e que só o equilíbrio entre eles pode fazer o homem caminhar feliz pela terra onde nasceu. Meu bisavô era um esotérico. Feliciano, meu avô também. Aliás, era assim que gostava de ser chamado de Esotérico do Parque do Boi.

Mas, por que do Parque do Boi? Eu não disse a vocês que meu avô tinha várias habilidades? Então, vejamos.

Quando veio dar com os costados na cidade onde mora perto, vovô conheceu o Parque do Boi. Neste parque, tinha algumas atrações como roda gigante, carrossel e alguns carrinhos de corrida, mas, o que chamava a atenção das pessoas era a apresentação do Boi Bumbá que acontecia duas vezes ao dia nos fins de semana. Meu avô ficava fascinado com a história do Boi, de como e porque ele morria e, principalmente, de como ele ressuscitava de maneira tão mágica.

Percebeu que o Parque, apesar de ser uma atração interessante para o povo da cidade, andava meio mal das pernas, carecendo de mais investimento em modernidades. Decidiu então, pegar todas as economias que amealhou ao longo dos anos trabalhando em uma fábrica de fumo da cidade e comprou o Parque do Boi do dono, que já estava mais era querendo ir embora dali.

Pronto. Passou a ser o dono do parque e, mais, ainda, dono do Boi que era o seu encanto. Passou a abrir o parque a partir das quintas a noite, com promoções nos novos brinquedos que comprou e a encenar a história do Boi às sextas, sábados e domingos a noite.

Meu avô então sentia-se completo. De dia, atendia as pessoas que o procuravam em sua cabana para a cura e aconselhamentos e, nas noites de quinta a domingo, ia cuidar do seu parque.

Um dia, notou que seu sirimbabo, o papagaio que ia com meu avô para todo lado, estava muito agitado, gritando sem parar olhando em direção a porta da cabana. Caminhou em direção a ave e olhou para fora. Parada diante da porta estava uma mulher, vestida com uma roupa de couro e um terçado pendurado na cintura. Sentiu um arrepio na nuca de reconhecimento. Estava diante de uma encantada.

A mulher saudou meu avô: “Meus respeitos àquele que vive no limiar, entre o que é e não é, pois é dele a sabedoria.”. Meu avô respondeu: “Te saúdo, Senhora do Tempo que tudo sabe e que encaminha todos à terra dos antepassados cortando o fio da vida com seu terçado afiado. É chegada minha hora, Senhora?”. Perguntou meu avô. “Ainda não” respondeu a senhora. “Vim avisar que você corre grande perigo. Mas, o boi pode te salvar. Basta saber como se encantar. Daqui a três luas, o boi te come. O boi te cospe. E você caminha pela terra. Se assim não for, venho te buscar para você caminhar pelo reino dos encantados.”

Meu avô, depois de ver a Senhora do Tempo sumir pela floresta, sentou na porta da cabana matutando naquelas palavras.

Passaram-se três luas. Meu avô, que havia guardado no coração as palavras da Senhora, estava um tanto apreensivo, mas, ia ao parque. Seja qual fosse seu destino, o boi ia salvá-lo. Ou não.

Lá chegando, verificou os brinquedos, observou a roupa dos atores que encenavam a história do Boi. Tudo estava a contento. Meu avô era um homem muito exigente e o parque só podia abrir depois de tudo verificado por ele, pessoalmente.

O parque foi aberto, e, especialmente naquele dia estava lotado. Sua fama estava correndo até pelas cidades vizinhas, então o público só fazia aumentar.

Todos brincavam nas atrações e o espetáculo do Boi já ia começar. Com tudo pronto, de repente, o ator que dava vida a uma das partes do Boi começou a passar muito mal. Meu avô, que não podia deixar o espetáculo parar, deu um chá curativo ao rapaz e assumiu seu lugar, na parte da frente do Boi, que era composto de duas partes móveis: a da cabeça, com uma pessoa movimentando e outra de trás, com outra pessoa fazendo o movimento das pernas.

Começou o espetáculo e a encenação ia bem, quando de repente, ouviram-se gritos vindos do lado da plateia. Tiros partiam da entrada do parque. Dois homens anunciaram um assalto e queriam saber onde estava o dono. Só o dono poderia dizer onde estava o dinheiro arrecadado na noite de funcionamento.

Meu avô dentro do boi quis se apresentar, mas, o outro ator não deixou. Segurou-o para ele não sair da cabeça do Boi. O gerente do parque se apresentou como o dono do parque e levou os assaltantes até o escritório, de onde eles tiraram todo o dinheiro que queriam.

Vô Feliciano protestava baixinho, dizendo que ia lá, que ele é que deveria estar no lugar do seu funcionário, mas o ator segurava vovô firme, para não deixar ele fazer nenhuma valentia fora de hora.

Os assaltantes já estavam indo embora, quando de repente, o gerente, sacando uma arma que trazia sempre escondida em sua cintura, atira em um dos assaltantes. O bandido revida e acerto o senhor, que cai ao chão.

Os ladrões fogem e todos correram para acudir o velho senhor. Vovô Feliciano saiu de dentro do boi e foi até o gerente do parque, seu amigo de longa data. Começou a cantar uma cantiga bonita, antiga, colocando as mãos sobre o ferimento do homem. A ferida parou de sangrar lentamente e se fechou. O senhor abriu os olhos, sorriu e levantou do chão dando um abraço em vovô, para alívio de todos.

Subitamente, a voz da Senhora passa como um relâmpago na sua cabeça: “o boi te come. O boi te cospe. E você caminha pela terra”.

Meu avô, o Esotérico do Parque do Boi, caminhou pela terra durante muitos anos após esse episódio. Até o dia em que a Senhora cortou o seu cordão da vida com seu terçado afiado. Pegou-o pela mão e levou-o para rever seu pai.

Seguiram os dois, Encantados do Limiar, protegendo para sempre a fronteira entre a cidade e a floresta e visitando o Parque do Boi. Quando pequena, podia vê-los e ouvi-los sentada na soleira da outrora cabana do meu avô. E foram eles que me contaram essa história.




Foto: https://unsplash.com/@david_bxl

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