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Narrativa enquanto espero


Rosa Araujo

“Caminhante, não há caminho, o caminho se faz ao caminhar” Antonio Machado

O rapaz chega a minha mesa, senta e me pede:

- Me conta um pouco da sua vida!

Eu me surpreendo com a pergunta do jovem. Jovens , habitualmente, não tem muita paciência para vivências dos mais velhos, principalmente, das mais velhas.

Olho para ele com olhos inquiridores e ele, sorrindo, refaz o pedido:

- Vai, moça, me conta um pouco da sua vida!

Eu olho para ele e começo

- Nasci de uma mãe anêmica e violentada pelo meu pai e pela vida. Vivi a minha infância e vida jovem adulta em uma casa que não era minha, com uma avó dos outros que se tornou minha. Sempre me considerei não merecedora de todas as coisas boas que ganhei ou conquistei, mais aceitei as ruins como um prêmio de consolação. Tracei metas, cumpri as que pude, descumpri outras tantas por cansaço ou por pura rebeldia. Amei, fui amada e várias vezes desamada, principalmente por mim mesma. Casei e continuei sozinha, pois o marido era um ensimesmado por opção. Posso dizer que vivi e continuo aí, esperando uma intervenção divina para me reinventar.

Mas, e você, que pouco da sua vida vai me contar, menino?

- Amo, não sou amado. Trabalho com o que tenho, mas, almejo a paz que não tenho. Tenho muitos desejos, muitos anseios que o dinheiro não compra e outros tanto que poucos reais dão conta. Por isso, moça, tô indo embora, procurar em outro lugar o que não tem aqui para mim. Tenho sonhos a realizar, pessoas a amar e uma estrada imensa a percorrer!

Olho para o jovem sorridente, de olhos limpos e esperança estampada nas palavras e respondo:

- Vá meu filho! Em cada parada que você fizer em sua jornada, antes de chegar ao seu destino, peça para alguém contar um pouco da vida. Ouça, acolha, aprenda e reinvente na sua história, aquilo que não se realizou em cada história que ouviu. É de aprendizado e reinvenção que se faz a história da vida de quem está no inicio da estrada.

- Vá, pergunte, ouça e seja feliz!

O jovem chega perto de mim, me dá um abraço apertado, pega sua sacola e passa pelo portão, em direção à estrada.

Da minha mesa, vejo, outra vida começar.



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