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Nós - Resenha de uma distopia

Atualizado: 3 de ago. de 2022

Autor: Ievguêni Ivánovitch Zamiátin

Ano de publicação: 1923 (estimativa).

Literatura russa – Ficção – Distopia

Publicação no Brasil: Editora Aleph


Nós é uma distopia escrita por Zamiátin, romancista e crítico russo que publicou alguns livros antes e depois da Revolução (Russa de 1917). Foi escrito por volta de 1923 e, apesar de não falar da Rússia – é uma fantasia sobre o século 26 – teve sua publicação recusada por ser ideologicamente indesejável. Uma cópia do manuscrito conseguiu sair do país e o livro apareceu em traduções para o inglês, francês e tcheco, anos mais tarde, para o resto do mundo.


A obra inspirou clássicos como 1984, de George Orwell, Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, e Fahrenheit 451, de Ray Bradbury. Inclusive, aproveito a oportunidade para citar parte do brilhante prefácio escrito por Manuel da Costa Pinto, na edição brasileira de Fahrenheit 451:


“Em 1933, quando os nazistas queimaram em praça pública livros de escritores e intelectuais como Marx, Kafka, Thomas Mann, Albert Einstein e Freud, o criador da psicanálise fez o seguinte comentário a seu amigo Ernest Jones: ‘Que progressos estamos fazendo. Na Idade Média, teriam queimado a mim; hoje em dia, eles se contentam em queimar meus livros’.”. O holocausto, anos depois, tornou a declaração de Freud pueril ao mostrar ao mundo que a idade média não estava tão distante assim.


Roberto de Sousa Causo (um importante estudioso do assunto e escritor de ficção científica) conceitua distopias como “a descrição de um lugar fora da história, em que tensões sociais e de classe estão aplacadas por meio da violência ou do controle social”.


Justamente a violência e o controle social das distopias é o que me fascina e assombra nessas histórias, pois é muito fácil notar suas semelhanças com o fascismo e as ditaduras da vida real. Nas distopias, os indivíduos se encontram em um estado tal, que já abriram mão de seus direitos, de suas liberdades, de sua própria essência. E na vida real? Será que gradativamente não estamos abrindo mão de nós mesmos? O flerte da distopia com a vida real é algo de arrepiar todos os cabelos se formos parar para pensar friamente.


Em Nós, a história se passa no século 26. Na visão de Zamiátin, os habitantes de Utopia perderam a individualidade tão completamente que são conhecidos por números. Vivem em casas de vidro, o que permite que a polícia política, chamada de “Guardiões”, os vigie permanentemente. Todos vestem uniformes idênticos, despertam no mesmo horário, alimentam-se de comida sintética e trabalham durante quase todas as horas do dia. A intervalos estabelecidos, podem “usufruir” de uma recreação habitual, que é marchar em filas de quatro pessoas enquanto o hino do Estado Único é tocado em alto-falantes.


Durante uma “hora pessoal” é permitido baixar as cortinas dos apartamentos para o ato sexual, que é regulado através de um tipo de talão cor-de-rosa. O (a) parceiro(a) com quem se passa uma dessas horas reservadas ao sexo assina ao canhoto. Portanto, embora a vida sexual não pareça ser totalmente promíscua, não há casamento, muito menos, família.

Não há propriedade, não há indivíduo, não há meu. Há somente nós, e nós fazemos parte do todo, do Estado Único!


D-503 é o personagem principal e narrador da história. Ele é um dos construtores da “Integral”, uma nave espacial que o Estado Único pretende lançar, com o intuito de integrar outros planetas do universo ao seu domínio. “Espera-se submeter ao jugo benéfico da razão os seres desconhecidos, habitantes de outros planetas, que possivelmente ainda se encontrem em estado selvagem de liberdade. Se não compreenderem que levamos a eles a felicidade matematicamente infalível, o nosso dever é obrigá-los a serem felizes. Mas, antes de recorrermos às armas, empregaremos as palavras".


D-503 tem a tarefa de escrever uma espécie de diário que convença os indivíduos de outros planetas que a vida no Estado Único é perfeita, pois liberdade e felicidade são inconciliáveis. Ou se vive em estado de liberdade e infelicidade, ou abre-se mão da liberdade para uma perfeita felicidade nos braços do Estado Único. “Integrar” as curvas em uma reta, uma assíntota. Porque a linha do Estado Único é reta!


No Estado Único, pensar, imaginar ou sonhar são doenças. E D-503, ao encontrar uma misteriosa mulher, passa a duvidar de suas convicções, sendo contaminado pela doença dela. A espiral descendente dos acontecimentos que se seguem é vertiginosa e envolvente.


Para finalizar, transcrevo e adapto um pequeno diálogo do livro, para não encerrarmos com a sensação de que tudo está perdido (seja na distopia ou na vida real):


Você compreende que o que está sugerindo é revolução?

Certamente, é revolução. Por que não?

Porque não pode haver uma revolução. Nossa revolução foi a última e não pode haver outra. Todos sabem disso.

Meu querido, você é matemático; me diga: qual é o último número?

Mas isso é absurdo. Números são infinitos. Não pode haver último.

Então, por que você fala sobre a última revolução?


Rodrigo Monsores


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