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Fantasia de Carnaval

Rosa Araujo


“Mas, chegou, o carnaval, e ela não desfilou”

Retalhos de Cetim – Benito de Paula


Rosana guardava fervorosamente todo o dinheiro do seu salário como faxineira para desfilar no carnaval. Este ano não seria diferente. Só que desta vez ela seria o que se chama “destaque de chão” da sua escola do coração. Era uma fantasia mais trabalhada e, por isso, mais cara. Exigia mais disciplina na economia.

As patroas pagavam e Zana, como era carinhosamente chamada pelos amigos, guardava o dinheiro em uma caixa de perfume antiga que tinha em sua casa. Suas amigas sempre falavam para ela: “Garota, guarda isso no banco!!! Parece uma velha guardando dinheiro em caixa!”, mas, ela preferia ter ele ali, na sua frente, onde ela sabia que não podiam “dar golpes” ou “sumir com o dinheiro” de repente.

Esse ano, não tinha como, ia sair linda na sua escola , com um resplendor de penas azuis e botas brancas. Era a sua máxima todos dias: “Esse ano, saio na avenida de resplendor e bota!”. Ia bem no seu intento fazer suas faxinas e guardar o dinheiro para a tal almejada fantasia.

Um dia, no ensaio da escola, seu olhar cruzou com o de Fábio, um ritmista que apareceu de repente na agremiação. Zana reparou no jeito como o rapaz a olhava, mas, deixou para lá. Fábio, que já andava meio caído pela moça, um dia, resolveu se achegar: “Poderíamos conversar um pouco? Acho você tão bonita, samba tão bem, tem namorado?”. Ela achou o rapaz um tanto ousado, mas, não fugiu à pergunta e disse que não tinha. Começaram a conversar, saírem juntos, até que Zana, em um curto espaço de tempo, convidou-o para morar com ela.

As amigas ficaram um tanto espantadas com a velocidade com que a Zana convidou Fábio para morar com ela, mas, viram que a amiga estava muito apaixonada pelo rapaz, decidiram não intervir.

O casal aparecia nos ensaios da escola de samba sempre em clima de muita paixão e Zana seguia contente, contando os meses para a chegada do carnaval e do desfile da sua escola.

Os meses se passaram. O casal continuava frequentando os ensaios, porém, já não se via mais aquele clima harmonioso de antes. Zana parecia um tanto tristonha e Fábio, cada vez mais carrancudo e mal-humorado. As amigas, o pessoal da escola, que já conhecia Zana de muito tempo, tentavam arrancar alguma coisa da moça, mas ela só repetia que estava tudo bem.

Chegou o dia do desfile. A concentração da escola iria ser de madrugada. O pessoal que morava perto de onde iria ser o desfile, como Zana, já estava lá. As amigas dela inclusive, já tinham chegado e estavam estranhando a ausência da amiga tão querida, que queria tanto defender as cores da escola com a sua fantasia luxuosa, comprada com tanto sacrifício.

De repente, passa Fábio correndo perto da concentração da escola de samba, com uma caixa de perfume em uma mão e uma faca na outra. Ao ver aquilo, os amigos de Zana correram atrás dele.

Quando a bateria anunciou a entrada da escola na avenida. Encontraram Zana, no meio da rua, caída no chão, de bota, e o resplendor azul, começando a ganhar um novo e triste tom de vermelho vivo.



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