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De volta pra casa

“There’s no place like home”

Dorothy – Wizard of Oz


Rosa Araujo


Era mais ou menos por volta da meia-noite. Marcos voltava do futebol semana, quando viu um vulto feminino sair de dentro do mato, correndo, e, passar na sua frente.

Freou a bicicleta, certo de que havia atropelado uma moça. Ao levantar do chão, notou que tinha machucado a cabeça no chão de terra batida. Levantou batendo a sujeira da roupa e levou a mão à testa constatando que tinha um galo bem grande em sua testa. Pensou que deveria ir quanto antes para casa, colocar gelo no local para não piorar o inchaço.

Estava abaixado colocando a corrente da bicicleta no lugar, quando ouviu uma voz feminina dizer, baixinho:

— Moço, pode me ajudar?

Marcos olhou a sua volta, mas não viu ninguém, somente o mato que ficava ao lado da estrada. Continuou tentando colocar a corrente da bicicleta, quando ouviu aquela voz, que mais parecia um sussurro:

— Moço, me ajuda!!!

Marcos levantou e começou a procurar de onde vinha aquela vozinha. Pensou: “será que é a moça que eu quase atropelei quando saiu correndo do mato?”. Quando virou para trás, se deparou com uma mulher jovem, de uns 19, 20 anos mais ou menos. Estava com uma bolsa apertada contra o peito e um rosto pálido, assustado.

O rapaz, observando se ela estava ferida, perguntou: “O que houve? Por que você precisa da minha ajuda? O que está fazendo aqui, nesta estrada sozinha, a essa hora?” A moça, olhando para Marcos timidamente, disse: “Preciso que alguém me ajude a achar o caminho de volta.”, “Caminho de volta para onde, moça?” Marcos perguntou, “Caminho de volta para casa, não consigo achar.”, ela respondeu.

O rapaz ficou olhando para ela sem entender. Como podia alguém não saber o caminho da própria casa? Estaria ela sofrendo de amnésia? Examinava o aspecto da moça, ressabiada, com uma bolsinha todo o tempo apertada contra o peito. Resolveu perguntar: “você tem algum telefone de alguém que eu possa ligar? Ou você? Te empresto o meu celular.”, ela foi abaixando a bolsinha e, abrindo zíper, tirou uma foto lá de dentro e mostrou a Marcos: “Eu moro nessa casa, você já viu?”. Ele olhou atentamente e, de repente, tomou um susto: “Eu sei onde fica!”

Era uma casa bonita, com a frente toda pintada de branco, algumas flores no jardim e uma lâmpada, que imitava lamparina, bem em cima da porta da frente. Ela ficava localizada em uma rua paralela à principal. De vez em quando pegava essa rua para ir ao futebol. Na foto, ela parecia mais nova, a pintura mais recente, mas, poderia ser uma foto antiga.

Disse à menina que iria levá-la. Pediu para ela subir na bicicleta, já que tinha conseguido pôr a corrente no lugar, mas, ela estava um tanto receosa, “Podemos ir andando?”. Marcos deu de ombros e foi empurrando a bicicleta pela rua. Foram calados, até que o rapaz perguntou: “Como é seu nome?”, “Betina”, “Quantos anos têm?”, “20”. Ela continuou contando em uma voz baixa que seu pai se chamava Claudio e a mãe, Vera. Disse que haviam se mudado recentemente e ela estava preocupada, pois, já estava fora de casa há muito tempo. Marcos, estranhou, pois, aquela casa parecia um tanto abandonada, mas, ficou calado.

Ele tratou de tranquilizá-la, pois, já estavam quase chegando, e, finalmente ela iria acalmar os pais. De repente ao subir em uma parte mais elevada, avistaram a casa. Ela, então, disse que dali seguiria sozinha, pois, não tinha como se perder dali. Marcos ainda tentou argumentar, dizendo que iria leva-la até a porta, pois, estava muito tarde, mas ela disse que dali ela seguiria sozinha. O rapaz resolveu não argumentar mais, pois estava com uma dor muito intensa no machucado da testa. Concordou.

Betina então abraçou-o calorosamente e disse: “muito obrigada. Finalmente, alguém conseguiu me conduzir de volta a minha casa. Já posso finalmente reencontrar meus pais. Serei eternamente grata.” Marcos ficou um tanto perturbado com aquele contato, mas, retribuiu o abraço. Separaram-se e ele ficou olhando-a descer a estrada por um instante. Olhava também para casa, com aquela luz acesa em cima da porta da frente, de aspecto um tanto abandonado, mas, presumiu que os donos eram, talvez idosos, para cuidar do imóvel direito.

Montou na bicicleta e foi para casa. Os pais já estavam muito assustados, pois passava de uma hora da manhã. A mãe, ao ver o ferimento na testa, correu para fazer um curativo.

Estavam limpando o ferimento, quando Marcos contou como havia se machucado, do encontro com a moça e a sua impressão de que ela estava um tanto desorientada. A mãe olhou rapidamente para o marido e perguntou ao filho: “Como é o nome da moça, meu filho?” , “Betina”, ela olhou novamente para o marido, assustada. “Ela pediu para você leva-la para casa?” , Marcos concordou; “Sim e eu a acompanhei até um certo ponto, pois, na parte mais alta da estrada, ela disse que dali em diante seguiria sozinha. Me deu um abraço caloroso de despedida e me agradeceu muito. Só achei estranho, porque a casa parecia um tanto abandonada, mas, tinha uma luzinha acesa em cima da porta da frente.” O pai olhou para o filho e disse: “Ela parece abandonada porque ninguém mora nela há dois anos, meu filho.”, “Como?!” perguntou Marcos. O homem então contou a história.

— Betina estava voltando da faculdade pela estrada e de repente, do meio do mato, saiu um homem que deu uma gravata na menina e arrastou para dentro do mato. Desde então, ela nunca mais foi vista. Os pais foram à polícia, deram queixa, acompanharam a investigação de perto, mas, o procedimento não foi adiante, pois, não se achava nenhum vestígio da menina e nem do agressor. A policia resolveu encerrar a investigação e declarar Betina como desaparecida. Os pais, aos poucos, definharam de desgosto pelo desaparecimento da única filha. Um dia, foram encontrados mortos, dentro da casa, abraçados. Ao que parece, se envenenaram.

A mãe continuou: “desde esse dia, dizem que uma menina com as características de Betina começou a aparecer na estrada, tarde da noite, talvez na hora do seu desaparecimento e, sempre pedindo para alguém levá-la para casa. Porém, ninguém teve coragem. Até você ter meu filho”

No dia seguinte, Marcos voltou do futebol pela estrada paralela à principal, onde ficava a casa de Betina. Olhou a casa e constatou que a luz em forma de lamparina havia se apagado. Finalmente, ela e seus pais estavam juntos, em casa.



ROSA ARAUJO é uma apaixonada por literatura, astrologia, tarô, animais, língua francesa e gente. Estudou, graduou-se em letras e fez mestrado em literatura brasileira na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Trabalha no Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro há 17 anos. Atualmente tem um blog de astrologia. É casada, tem uma filha e mora em Seropédica. RJ.

Endereço do blog: www.ojuarairamesoterica.blogspot.com

Pagina no instagram: @esotericaluz2022

Facebook: Rosa Zanuzzo

Perfil Pessoal instagram: rosazanuzzo2022





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