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Dança da Vida


*Rosa Araujo


Todos os dias Mena acordava com a sensação de que não havia dormido. Trabalhava na casa de D. Elsa há mais de vinte anos e a sensação era a mesma sempre: de não descansar.

A patroa era uma pessoa de exigências incessantes e festas intermináveis. Achava que Mena era um tipo de autômato, que não tinha vontade e vida própria. Quando saiu de sua terra natal para tentar a vida naquela cidade, se propôs a aceitar quaisquer condições de trabalho, e, por isso, quando chegou a casa de D. Elsa, se submeteu a um regime quase escravo de trabalho.

Trabalhava por um salário mínimo, um prato de comida e os benefícios garantidos pela lei trabalhista. Não havia reconhecimento de sua condição humana por parte da patroa.

Mena então, para fugir de uma rotina tão massacrante, nos seus poucos domingos de folga, gostava de ir à gafieira. Sim, gafieira! Ali, não era a Mena, empregada doméstica, mas, Romena, a dançarina que sabia riscar o salão como ninguém.

Dançava para se divertir e para se libertar das dores do seu dia-a-dia sem perspectiva. Rodopiava pelo salão com os parceiros que disputavam uma dança com ela.

Quando acabava os bailes, voltava para o trabalho com alma renovada.

Um domingo de sua folga, D. Elsa inventou uma festa de surpresa, sem aviso prévio. Justamente neste dia, que seria a folga de Mena, ela disse à empregada que daria uma festa de despedida para uma amiga que estava de partida para os Estados Unidos.

Justo neste dia teria um campeonato de gafieira no qual Mena estava inscrita. O prêmio era excelente, e, se ganhasse, conseguiria sair desse trabalho escravizante, conseguiria comprar uma casinha modesta e, ainda, poderia, quem sabe, começar a empreender, montar um restaurante pequeno, ou, um bar.

Perguntou a D. Elsa se não poderia chamar uma amiga para ficar no lugar dela somente neste domingo, ela nunca a havia deixado na mão, porém a patroa negou veementemente, dizendo que ela não poderia fazer isso. A senhora nem pensava na possibilidade de não ter Mena como a cozinheira do almoço que ia oferecer! Se se recusasse a trabalhar no domingo, ela podia pegar suas coisas e ir embora de sua casa!

Então, a moça, cansada de tanta tirania da patroa, virou-se e disse:

- Pois muito bem! Se é assim, então, eu vou embora! Já chega! Cansei de ser sua escrava, cansei de trabalhar igual a uma louca!

D. Elsa, que não esperava aquela resposta, perguntou a Mena:

- Onde você vai morar?

Mena respondeu:

- Não sei e nem lhe interessa! Aqui, eu não fico mais!

Arrumou os seus pertences, saiu da casa da patroa sem olhar para trás . Bateu na porta do clube onde tinha o salão de gafieira e pediu ao dono para ficar em um quartinho que ela sabia estar vazio lá nos fundos. Ele acolheu a moça e disse que ela podia ficar quanto tempo quisesse. Ela respondeu que ficaria somente até o dia do concurso. Depois, perdendo ou ganhando, iria embora. Ele ficasse sossegado.

O domingo do concurso chegou. Mena, a Romena do Salão estava muito nervosa. Do quartinho onde dormia dava para ver o salão. Ela olhou e viu que estava lotado que os jurados estavam posicionados para observarem os pares e darem as notas.

Mena respirou fundo e deu a volta por fora do salão para poder entrar pela porta principal. Procurou Giovani, seu par, e se posicionou para começar as danças.

Começou o concurso. Romena e Giovani deram o seu melhor e foram avançando. Quando se deram conta, já estavam na semifinal. A final seria contra uma dupla muito conhecida no mundo da dança de salão. Mena estava muito apreensiva. Achava que ela e seu parceiro, por melhores que fossem, não conseguiriam ganhar. Então, lembrou-se que estava desempregada e não tinha onde morar. Respirou fundo, pegou a mão de Giovani, e, quando foram chamados ao centro do salão, dançaram como nunca.

Acabou o concurso. Mena e Giovani aguardavam, nervosos, o anúncio de quem havia vencido o concurso, quando uma senhora elegante, bem vestida, aproximou-se de Mena. A dançarina levantou os olhos lentamente. Qual não foi a surpresa quando ela reconheceu D. Elsa!

- O que a senhora está fazendo aqui, D. Elsa!

A senhora olhou para ela e disse:

- Vim para entregar o prêmio ao casal vencedor do concurso. Então você é a Romena do Salão?!?! Meu Deus, que ironia!

De repente o alto falante do salão anunciou:

- E vamos anunciar a dupla vencedora do concurso!

D.Elsa olhou para Mena e disse:

- Vamos ver quem ganhou.

O locutor então anunciou:

- E o casal vencedor é: Romena do Salão e Giovani com 4 votos a 3! Parabéns!!!!!!! E para entregar o prêmio, a patrocinadora do concurso, D. Elsa Werner, dona das Empresas Werner!

A senhora subiu ao palco com o prêmio em um cheque simbólico. Parabenizou a dupla e, rapidamente falou a Mena:

- Me perdoe pelo horror que te infligi esses anos todos. Aproveite esse prêmio e seja muito feliz, Romena do Salão.

As duas se abraçaram chorando muito.

Em algumas semanas, Romena, com o dinheiro do prêmio, comprou uma pequena casa perto do Clube. Abriu uma escola de dança de salão e D. Elsa é sua aluna mais aplicada e uma sócia da escola de dança satisfeitíssima com o novo empreendimento.


* ROSA ARAUJO é uma apaixonada por literatura, astrologia, tarô, animais, língua francesa e gente. Estudou, graduou-se em letras e fez mestrado em literatura brasileira na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Trabalha no Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro há 17 anos. Atualmente tem um blog de astrologia. É casada, tem uma filha e mora em Seropédica. RJ.

Endereço do blog: www.ojuarairamesoterica.blogspot.com

Pagina no instagram: @esotericaluz2022

Facebook: Rosa Zanuzzo

Perfil Pessoal instagram: rosazanuzzo2022


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